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O outro lado do repugnante.




Aconchegou-se na pequena embalagem, ainda sentia o resto de doce grudar em suas duras patas. Observou mais uma vez a chuva caindo, era noite. Uma noite quente que, pelo menos, aquela chuva refrescaria seu antigo lar...
Lar...
Não sabia quando voltaria, ou melhor, se voltaria.



Lembrava perfeitamente de quando fugiu de seu ninho. Lembrava das duas vezes com perfeição.
A primeira foi graças a uma de suas irmãs, chegou colocando todos em perigo. Metade de sua família morreu, a outra metade fugiu, separou-se no meio do caminho. Uma grande família que sobrara apenas alguns.
Tão poucos...
A segunda vez acontece agora.
Teve que fugir por culpa do calor.
Em seu ninho estava tão quente, tão abafado, que acabou por fugir. Assim perdeu-se de sua família, ou pelo menos o que sobrou dela.
Agora, observando a noite escura, tentava captar qualquer sinal de perigo. Sabia que não encontraria mais sua família, já que não se lembrava por onde tinha vindo. Por sorte, encontrara aquele lugar onde estava agora, caso contrario, poderia acontecer coisas ruins.
Uma brisa passou, rapidamente captou a direção e o frescor.
Tudo estava calmo. Calmo e perfeito. Abriu as asas e logo voltou a fechá-las. Raramente voava, então apenas abria o suficiente para relaxar.
Observou o local, mas a falta de luz lhe impediu de ver qualquer coisa. Assim ficou. Parada, quieta. Apenas captando o ambiente.
Tranquila.
Assustou-se com um movimento repentino de seu novo abrigo. Começou a sair para procurar outro lugar. Logo que saiu, sentiu uma enorme força lhe empurrar. Bateu contra algo duro, caindo com as patas para baixo. Mal caiu e já correu. Correu o mais rápido que pode.
Começou a escalar algo, tão duro quanto o antigo lugar onde estava. Após escalar um pouco, parou. Estava segura.
Agora estava segura.
Tentava captar qualquer mudança no ambiente, apesar de estar segura, ainda tinha receios.
E sempre que sentiu receio, algo ruim acontecia.
Mas estava demorando muito. Então relaxou.
Algo extremamente ruim atingiu suas costas.
Era um misto de ardência, com um frescor insuportável. Sentia seu esqueleto congelar e derreter ao mesmo tempo. Mas ele ainda estava intacto.
Por tanta dor acabou caindo. As patas estavam para cima debatiam-se tentando se livrar daquela sensação horrível.
Então, uma ventania lhe jogou com as patas para baixo. A ardência, que antes estava só na parte de cima, passou para as patas. Não captava mais nada. Perdeu a direção.
Saiu desembestada, correndo como nunca correu antes. Entrou em algum lugar cheio de buracos e perdendo a força nas patas caiu.
Uma grande quantidade de água caiu sobre si.
Estava com as patas para cima e paralisadas. A dor era tão forte que passava a ser apenas um formigar.
Balançou as antenas, que a esta altura, não funcionavam mais. Lembrou-se de quando uma de suas familiares entrou carregando aquela sensação horrível. Assim fugiu pela primeira vez.
O corpo começava a parar. As antenas também. Tudo estava completamente paralisado.


O velho pacote de sorvete ia ser jogado fora. Era dia da coleta de lixo.
Pegou com cuidado o pacote. De lá saiu o bicho mais repugnante que já vira. Odiava aquela coisa.
Correu para dentro da casa.
–Mãe! Cadê o veneno para baratas?

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